Leituras Janeiro/19 – Mulheres e guerra

Todas as leituras desse mês foram incríveis. Nem eu imaginava que iria gostar tanto do que selecionei pra janeiro. Tentei escolher livros ambientados em momentos históricos e por causa disso aprendi um bocado sobre esses períodos, sobre mulheres e sobre a guerra. (Aqui você pode conferir as leituras de Dezembro/18).

O primeiro, “As irmãs Romanov”‘ de Helen Rappaport, se passa durante a Revolução russa de 1917 e conta com detalhes como se deu a queda do tsarismo na Rússia utilizando a visão e as experiências vividas pelas princesas Romanov. O segundo, “A guerra que salvou minha vida” de Kimberly Brubaker, é ambientado em plena segunda guerra mundial, mais especificamente quando começou o conflito entre a Inglaterra e a Alemanha nazista de Hitler.

O Terceiro, “Annie” de Thomas Meehan, livro clássico escrito nos anos 80, conta a história da orfã Annie durante o começo da grande depressão americana e se passa no ano de 1922. E pra finalizar, “A guerra não tem rosto de mulher” de Svetlana Aleksiévitch, conta de maneira nua e crua o que a história insiste em apagar, a participação das mulheres que estiveram na linha de frente do exercito vermelho durante a segunda guerra.

“As irmãs Romanov”‘ Helen Rappaport ★★★★★

Algumas palavras conseguem descrever o que esse livro causou em mim: Choque. Tristeza. Desconforto. Helen Rappaport juntou anos de pesquisa sobre a família Romanov de Nicolau II, último Tsar da Rússia, pra escrever toda a história. O livro possui dados históricos, cartas, diários, testemunhos de amigos, conhecidos e empregados da família. Em virtude disso, muito da ótica e vivencia das princesas Olga, Tatiana, Maria e Anastacia é passada pra nós como forma de descrever os conflitos e experiências da família, o que deixa tudo mais interessante.

O começo da leitura explica com detalhes a linhagem da família real e como Alexandra casou com Nicolau. Então somos levados por uma série de fatos mega interessantes que ocorreram durante os anos em que a Tsarina deu a luz as suas 4 filhas e de como o povo e o trono russo se viram ameaçados pela falta de um sucessor, até a tão comemorada chegada de Alexei, filho hemofílico dos Romanov (doença que nem chegou a ser reportado na época).

irmãs-romanov
Da Esquerda pra direita: Anastácia, Tatiana, Maria e Olga
Os detalhes do exílio e do ambiente familiar

São tantos os detalhes nesse livro que chega a impressionar, eu consegui realmente ser transportada para o universo deles. O isolamento da família, a relação com a figura de Rasputin, o convívio entre os irmãos, a maneira humilde como foram criados e atacados pela mídia (apesar de serem da alta sociedade e de constituirem uma monarquia), a contribuição das princesas e Alexandra na revolução russa e na caridade e por fim, tudo que tiveram de passar durante o exílio, até o fatídico dia em que toda família russa foi executada pelos bolcheviques.

Os relatos são desesperadores e a narrativa te prende de verdade, não é aquele texto histórico tedioso, sabe? Lembro que enquanto estava lendo, me sentia revoltada com o que eles tiveram que suportar. A autora é muito bem sucedida em fazer o leitor se apegar as meninas. É um livro muito, muito bom. Se ficou interessado, recomendo inclusive a resenha do site valkirias.com.br pra te deixar com mais vontade ainda de ler.

“Um tolo prestativo é mais perigoso do que um inimigo” – Alexandra

“A guerra que salvou minha vida” Kimberly Brubaker ★★★★★

Impossível não se apaixonar por esse livro e pela Ada, garota de 11 anos e personagem principal. Como já falei, o enredo se passa durante a segunda guerra e na história acompanhamos a vida difícil da menina e do irmão.

A mãe, que nunca quis ter filhos, se viu sozinha com duas crianças após a morte do marido. Isso fez com que o comportamento extremamente abusivo e cheio de crueldades da mãe surgisse, principalmente com a menina, primeira filha que nasceu com uma deficiência (pé torto, que poderia ter sido curado). A maneira como a mãe negligencia as crianças é tão cruel que dá até agonia, imagina ler tudo sem ficar de estômago revirado com as atitudes?

A visão da criança na guerra

A escrita de Kimberly é muito sútil e inocente. Os abusos cometidos com Ada são muito horríveis, mas contados através da perspectiva da menina, acabam ficando com um clima menos pesado. a personagem é extremamente forte e inteligente pra idade dela e cativa logo no primeiro capitulo.

Pra resumir bem, as crianças fogem logo antes de explodir a guerra e acabam caindo nos cuidados da Sra. Smith, que apesar da depressão sazonal e de um trauma causado pela perda de uma pessoa querida , passa a cuidar das crianças com todo amor que elas merecem. A partir dai é só aventuras e crescimento pessoal dos três. O livro tem um plot twist que te deixa mega triste, mas o final é maravilhoso.

“Um novo e desconhecido sentimento me preencheu. Parecia o mar, a luz do sol, os cavalos. Parecia amor. Vasculhei minhas ideias e encontrei o nome. Felicidade.

“Annie” Thomas Meehan ★★★★

Ainda lembrava de alguns trechos do filme de 1982, mas mesmo assim resolvi ler Annie. O livro é mega curtinho e dá até pra ler em um único dia, mas mesmo tendo uma história fechadinha e sem furos, as vezes parece corrido demais. Annie foi uma personagem de tira de jornal criado por Harold Gray na década de 20, pós guerra, nos Estados Unidos. Thomas Meehan transformou a história em musical da Brodway anos depois (ganhando até Tony). Por causa da adaptação, algumas coisas do roteiro original acabaram ficando de fora. Foi ai que posteriormente a história acabou virando livro.

A história é bem emocionante e Annie é uma personagem tão forte e cheia de vida que faz o coração da gente transbordar de esperança. Eu mesma gostaria de esbarrar com uma Annie nesse vida.

Sobre Annie

Durante o começo da depressão americana, a menina é deixada com um bilhete e um medalhão na porta de um orfanato. Todas as crianças da instituição sofrem o pão que o diabo amassou nas mãos da administradora, que é minha chará inclusive, Agatha. Annie resolve fugir e na fuga encontra pessoas boas, pessoas ruins e seu cachorrinho Sandy, vira-lata que ela resgata da crueldade de uns moleques.

A vida de Annie muda quando o destino faz ela chegar aos cuidados do bilionário Oliver Warbucks. O legal da história é ver como ela aos poucos vai mudando a vida das pessoas que passam pelo caminho dela. Com Oliver não foi diferente. O livro até cita personalidades famosas como o presidente americano Roosevelt e o famoso J. Edgar Hoover, primeiro diretor do FBI, ambos contatos do bilionário. Só pela mensagem de otimismo, Annie merece muito entrar na lista de leitura de todo mundo.

“Bem, eu acho que, quando a gente pensa nas coisas boas que podem acontecer amanhã em vez de nas coisas ruins que estão acontecendo hoje, a gente pode começar a fazer essas coisas boas acontecerem.”

“A guerra não tem rosto de mulher” de Svetlana Aleksiévitch ★★★★★

Na minha cabeça, as mulheres nunca chegaram a atuar diretamente na linha de frente durante a guerra. Estava mais familiarizada com relatos históricos que mostravam como elas trabalharam como telefonistas, enfermeiras, comunicadoras e interpretes, mas jamais dentro de uma trincheira apontando armas pro inimigo ou no comando de pelotões inteiros. A autora do livro juntou relatos de mulheres que estiveram no front do exercito vermelho soviético pra mostrar um lado da guerra que ninguém conhece. O lado feminino da força.

Culpa dos homens e do cinema

Essa minha visão foi super reforçada ao longo dos anos através dos filmes principalmente. Por exemplo, você se lembra de ter visto algum filme sobre a segunda guerra com mulheres em posição de liderança, lutando ao lado de soldados? Pois é.

Isso se deve ao fato das guerras serem sempre contadas através da perspectiva do homem. Alguns nunca aceitaram estar em posição de inferioridade diante das mulheres. Algumas suportavam melhor a dor, eram melhores atirando e não aceitavam não como resposta.

mulheres russas na guerra
Os relatos

Muitas coisas me impressionaram nessa leitura. Inclusive, descobrir o número de mulheres que realmente estiveram na guerra em posições como francoatiradoras, pilotos, comandantes. Milhares delas lutaram até a morte pra defender seus países e suas famílias, mas nunca são lembradas. No livro há relatos de mulheres que, literalmente cresceram durante a guerra, pois se alistavam ainda adolescentes e relatos de como tentaram se adaptar a uma vida normal depois de tanto conviver ao lado na morte.

Tantas histórias me deixaram chocada durante a leitura. Uma ucraniana que viu toda sua família e vilarejo morrerem de fome depois de sobreviver comendo esterco de cavalo, a da mãe que matou o filho recém nascido afogado num pântano para que os alemães não pudessem encontra-la ou a da mãe que teve seus filhos fuzilados e no fim foi obrigada a jogar seu bebê pro alto para que um alemão pudesse atirar nele.

Morte, estupro, abusos, torturas, condições de miséria e fome. Pra ler o livro tem que ter estômago, não é fácil. Você começa a recriar todas as situações e sendo mulher, foi inevitável não me colocar dentro de algumas delas. Será que teria agido da mesma maneira? sobrevivido? Será que teria desistido de tudo? Recomendo demais a leitura desse livro, principalmente por elucidar tanto nossas mentes sobre os horrores de uma guerra e de como ela pode afetar a vida das pessoas. Pra terminar, um relato sobre o pós guerra para as mulheres ->

No começo nos escondíamos, não usávamos nem as medalhas. Os homens usavam, as mulheres não. Os homens eram vencedores, heróis, noivos, a guerra era deles; já para nós, olhavam com outros olhos. Era completamente diferente… Vou lhe dizer, tomaram a vitória de nós.

Bem, por hoje é só. Até o próximo post de leituras \o/

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